Wednesday, October 28, 2009

crescer vazio



O Zé Carlos tem 7 anos. Aos 5, pegou fogo à casa com mais um primo de 11 anos na véspera de Natal. Estavam os dois sózinhos.
[...]
O Zé Carlos tem 7 anos. Aos 6 entrou para a escola. Bate em todos e furta de preferência objectos novos que os outros meninos levam. Se apanha animais no recreio onde brinca, mata-os com requintes de malvadez.
[...]
O Zé Carlos tem 7 anos. Quando o vejo pela primeira vez em consulta faz-me um desenho livre. Tem sete cruzes, sete, e uma igreja e um céu. Cada cruz a um pertence, explica-me:

«Esta é pelo meu pai que está na prisão. Esta é do avô que morreu primeiro e esta é da avó que morreu depois. Esta é do meu tio que estava doente e esta é do meu primo que agora foi para a tropa e já não mora lá em casa»

Das duas que sobram, uma sobrevoa o desenho, enorme, com um Cristo crucificado.
«Já vi uma Bíblia assim» - e com os dedos mostra-me uma espessura de lombada grossa.
«E a última cruz?»
«É uma cruz voadora, é de quem a agarrar.»
Pergunto se não há vivos neste desenho.
«Jesus é vivo mas já está morto.»
[...]
O Zé Carlos é um rapaz de 7 anos. Se tivesse sete vídas psíquicas, julgo que estaria já a viver no limiar da última. Vem à consulta acompanhado pela mãe, mas o verdadeiro pedido de ajuda é o da escola, não o da família.. A mãe é uma mulher jovem, ainda na casa dos vinte e já com cinco filhos. o Zé Carlos, o mais velho dos irmãos, vive com a avó materna. As duas crianças seguintes vivem com os respectivos pais. Só os dois mais novos é que vivem com a mãe e com o actual companheiro desta.
[...]
É uma mulher que parece ter um discurso sempre distante de uma ressonância afectiva do que me narra [...] e descreve-me o seu actual companheiro que considera uma pessoa frágil com quem se identifica:
«Só tem o problema da bebida. Mas mesmo bêbado não é agressivo, anda a cair e é só isso. Até é meigo nessas alturas e mais brincalhão que o normal.» Instantes atrás mostrara-me uma nódoa negra marca viva de uma agressão recente deste homem.


* * *

Nas histórias de crianças que passam por negligência, maus tratos ou abusos encontramos vulgarmente um peso do que chamamos «perturbações transgeracionais». As raízes do actual mal afundam-se muitos anos atrás, em gerações precedentes
[...]
«Has-de passar tantas ou piores das que eu passei», dizia uma mãe maltratante ao seu bebé de meses que segurava que segurava no colo.
[...]
*
A este propósito, deixem-me falar-vos de uma história da Andreia de 9 anos. Conhecia-a num grupo de deslocação à praia de um grupo de crianças que em comum tinham um passado de desamparo emocional.
Uma estrela do mar agonizava ao calor de uma maré vazia em que, com certeza, fora apanhada desprevenida. As suas cinco pontas eram circundadas por seis pernas em círculo. A conversa entre este grupo de três crianças foi assim:
Nelson: «Matamos ela?»
Sílvia: «Matamos.»
Andreia: «Não. Põe outra vez ela ao mar.»
Sílvia: «Deixa.»
Nelson: «Porquê?»
Andreia: «Não vês que no mar deve haver quem trate dela?»
Sílvia: «Pois.»
Nelson: «Vou pôr quando a maré chegar.»
[...]
nem todos podem manter esta capacidade de repararação como a Andreia.


Sunday, October 25, 2009

gente feliz... com história!

de: Oprah.com

Em outubro de 2009, Oprah viajou para Copenhague, capital da Dinamarca, para apoiar a candidatura de Chicago para os Jogos Olímpicos de 2016. Bem, Chicago não foi escolhido, mas isso não impediu Oprah de desfrutar de sua primeira visita ao país que é considerado um dos locais mais felizes na terra.
Nos últimos 30 anos, pesquisadores científicos têm chegado à mesma conclusão, de forma consistente: os dinamarqueses são mais felizes do que o resto do mundo. No mapa do mundo "da felicidade", um mapa criado por um psicólogo social na Inglaterra, -Suíça, Áustria, Islândia e Dinamarca vêm imediatamente abaixo na escala de felicidade. Canadá vem em número 10, enquanto os Estados Unidos é um distante 23. Então, o que torna os dinamarqueses tão felizes?
Oprah encontrou com Nanna Norup, residente em Copenhaga, para descobrir. Enquanto andam pelas ruas de paralelepípedos, Nanna explica algumas das diferenças entre a Dinamarca e Estados Unidos. Por exemplo, em Copenhague, as pessoas são ambientalmente muito conscientes. Um terço da população anda de bicicletas pela cidade, muitos deles com sacos de supermercado ou crianças pequenas. Sem-abrigo, pobreza e desemprego também são extremamente raros neste país de 5,5 milhões de pessoas. Se você perder o seu emprego, Nanna diz que o governo continua a pagar até 90 por cento do seu salário durante quatro anos. E não se preocupe ... saúde é livre para todos.

Monday, October 19, 2009

para pensar...


Um habitante dos subúrbios americano anda de carro aproximadamente 6500km por ano, só para ir e vir do trabalho. Este percurso, multiplicado por todos os suburbanos que se dirigem diariamente para o seu trabalho, representa um consumo de 90 milhões de litros de combustivel, uma produção de duzentos e dezanove milhões de toneladas de dióxido de carbono, 11 milhões de pneus gastos e smog em quantidade em todas as grandes cidades.

O trabalho no domicilio permitiria alcançar economias substanciais.

Estatísticas recentes demonstram que, se metade dos suburbanos efectuassem o seu trabalho em casa, um dia por semana, utilizando (computador, fax e telefone), seria possível economizar 2,3 milhões de dólares em combústivel.

Além disso, 7650 vidas por ano seriam poupadas graças a um trânsito diário menos intenso.


(Uma Casa que Cura - Robert Denryck)


Saturday, October 17, 2009

A identidade em segunda mão: a narrativa emprestada

Underground é um livro diferente da restante linha de romances escrita por Haruki Murakami.

Na primeira parte temos os variados relatos de todos os que foram vitimados pelo atentado com gás sarin no metro de Tóquio a 20 de Março de 1995 e ficaram com mais ou menos sequelas (cerca de 6000 pessoas) ou dos familiares das vítimas que sucumbiram, bem como do pessoal de assistência médica.
No livro II, temos o depoimento de membros da seita Aum Shinrikyo, (Seita Verdade Suprema) liderada por Shoko Asara - o mandante do atentado, posteriormente condenado à morte tal como alguns dos acólitos que executaram as operações no metro.

Diferentemente dos relatos das vítimas, há uma interacção verbal considerável entre Murakami e os seguidores da seita, que visa esclarecer qualquer ponto mais hermético para quem lê.

Entre os dois livros, Murakami tece algumas reflexões, nomeadamente à estrutura mental –ou ausência dela, que permite que seitas como a Aum proliferem.
Abaixo, alguns exertos.

* * *
do Unabomber, publicado no New York Times em 1995:

O sistema organiza-se de maneira a colocar pressão sobre aqueles que não se conformam com ele. Os que não são conformes ao sistema são doentes; fazê-los conformar é a cura. Consequentemente o processo de poder que procura atingir a autonomia é quebrado, e o individuo é subordinado a processos de poder dependentes de outrem, que o sistema obriga a cumprir. Procurar a autonomia é visto como uma doença.

[…] o modus operandi da Unabomber é practicamente idêntico ao da Aum […] O argumento que Kaczinsky apresenta está essencialmente correcto. Muitas das partes do sistema social em que nos inserimos e em que funcionamos têm de facto, como objectivo reprimir a autonomia individual ou nas palavras do provérbio japonês: “a unha que se destaca é cortada rente” […] Kaczinsky descurou – com ou sem intenção – um factor importante. A autonomia não deixa de ser a imagem invertida da dependência de outrem. Se uma pessoa for abandonada em bebé numa ilha deserta não terá qualquer noção do que significa autonomia. A autonomia e a dependência são como a luz e a sombra presas na órbita gravitacional uma da outra, até ao dia em que, passado um período considerável de tentativas e fracassos, cada indivíduo consiga encontrar o seu próprio lugar no mundo.
Os que não conseguem encontrar esse equilíbrio, como talvez tenha sido o caso de Shoko Asahara, terão de compensar através da criação de um sistema limitado (embora na verdade bastante eficaz) […] Os esforços para superar as próprias deficiências fizeram com que ficasse preso num circuito fechado. Um génio aprisionado numa lâmpada com um rótulo a dizer “religião” que ele começou a colocar no mercado como uma espécie de experiência partilhada […] Também ele teve certamente o seu próprio satori, atingiu alguma espécie de valor paranormal. Sem essa extraordinária inversão de valores do quotidiano, Asahara nunca teria sido tão poderoso e carismático. Numa certa perspectiva, a religião primitiva transporta sempre consigo uma aura especial que emana da aberração psíquíca.
Para obter a autodeterminação que Asahara providenciava a maioria daqueles que se refugiaram na seita Aum parece ter depositado tudo o que possuía em termos de identidade – cofre e chave – nesse banco espiritual chamado Shoko Asahara.
[…] Tinham finalmente alguém que olhava por eles, que os poupava à ansiedade de enfrentarem sozinhos as situações novas e os libertava de qualquer necessidade de pensarem por si mesmos.
[…] Só Shoko Asahara lutava: a maioria dos seus seguidores era simplesmente engolida e assimilada pelo seu ego sedento de batalhas […]. Não eram vítimas passivas: procuravam activamente ser controladas por Asahara. O controlo mental não é algo que se possa obter ou entregar de modo tão simples. É uma dança a dois.
[…] a pessoa a quem confiámos o ego oferece-nos uma nova narrativa. Entregámos-lhe a verdadeira, o que recebemos em troca é uma sombra. E, depois do nosso ego se ter fundido noutro, é inevitável que adoptemos a narrativa por ele criada.
E que tipo de narrativa é esta? Não precisa de ser nada particularmente sofisticado, nada de complicado ou refinado. […] De facto quanto mais esquemática e simplificada, melhor. Um pechisbeque, umas sobras requentadas serão o suficiente. Assim como assim, a maior parte das pessoas está farta de cenários complexos e multifacetados.
[…]
Shoko Asahara era suficientemente talentoso para conseguir impor a sua narrativa requentada a outras pessoas (na sua maior parte, era disso mesmo que elas vinham à procura.) Era uma história mal-amanhada, risível […] A partir desta perspectiva, num sentido limitado, Asahara acabava por ser um grande contador de histórias, capaz de antecipar o espírito da época. Não se deixava tolher pela noção, consciente ou não, de que as suas ideias e imagens eram lixo reciclado.
[…]
Quaisquer que fossem as deficiências da narrativa, elas eram as deficiências do próprio Asahara, logo, não representavam qualquer obstáculo para os que escolhiam unir-se a ele […] Irremediavelmente maculado pela paranóia e pelo delírio, desenvolvia-se um novo pretexto, grandioso e irracional, até já não haver retorno possível…
Era esta a narrativa oferecida pela Aum, pelo lado deles. Estúpida, poder-se-á dizer. E é-o, sem dúvida. Quase todos nos rimos do cenário extravagante e absurdo que Asahara desenhava. Rimo-nos por ter fabricado um disparate pegado e zombámos dos seguidores que eram atraídos por aquele isco para malucos.
[...]
Já alguma vez ofereceram alguma parte do vosso Eu a outra pessoa (ou a algo), assumindo em contrapartida uma outra narrativa? Não teremos todos nós já confiado parte da nossa personalidade a um qualquer sistema ou ordem superior? E se o fizemos, não terá acontecido esse Sistema ter, a dada altura, exigido de nós algum tipo de loucura? A narrativa que agora é vossa, será ela real e verdadeiramente vossa? Os vossos sonhos serão realmente os vossos próprios sonhos? Não poderão ser as visões de outrem que mais tarde ou mais cedo se poderão transformar em pesadelos?

(Underground - Haruki Murakami)

Thursday, October 15, 2009

muitas coisas p/ comentar mas... pouco tempo para o fazer



embora o caso em si seja desinteressante, já levantou poeira nos meios de comunicação, provávelmente na falta de assunto melhor.

A verdade é que o vídeo é um espectáculo de mau gosto sobre si mesma do príncipio ao fim. A actriz Maite Proença debocha com Portugal e portugueses e ainda se lembra de cuspir no final do vídeo.
Do ponto de vista psicológico não deixa de ser fascinante a necessidade de atirar lama a uma nação que diz gostar muito; parece que mesmo gostando, (?) há uma violência latente, interior, que é preciso atirar cá para fora a qualquer preço, mesmo usando meios mesquinhos.
Quando vi o vídeo na comunicação social fiquei com uma única nota a ecoar na mente:
-porquê isso?!

Depois lembrei que não faz muito tempo, ela foi autora de uma opinião, em que defendia a caça... como meio de os rapazes exteriorizarem a violência...

Na altura foi contestada, é claro, por todos os que respeitam os animais e sobretudo por todos os que não acreditam na violencia como modo desejável de resolver seja o que for.

Mas há muitos tipos de violência... e nesse vídeo tambem há violência, insidiosa e desnecessária

ou forma de expressar desastradamente algum incómodo interior

Como argumento justificativo ela só encontrou um pouco convicto " acho que está faltando humor nos portugueses".

Então 'tá.

Quanto ao argumento mais que batido tipo-último-recurso que ninguem se deveria sentir ofendido, isso é próprio de quem não tem auto-estima sólida e só procura elogios, bla-bla-bla, acho que é sem comentários, porque não está causa o alvo mas o despropósito de um comportamento pouco saudável.

E, para mim não interessa serem brasileiros, portugueses ou qualquer outra nacionalidade, minha pátria é o planeta terra e todos os seus habitantes deveriam ser irmãos (não estou falando só de pessoas, mas de todos os seres).

Há, há, deixem-me lá expressar a minha utopia.

Utopias à parte, que tal um pouco de bom senso e educação?!

Já li várias palavras interessantes e inteligentes sobre o tema, mas nada me parece tão bem neste momento como deixar nas mãos da querida Hazel algumas considerações doces e firmes sobre o assunto.

E que as aparências, como algumas pessoas mais argutas percebem, nem sempre são o que parecem... rss... e até ficamos a saber que um três invertido pode ser bem mais que... um três invertido!