Wednesday, October 28, 2009

crescer vazio



O Zé Carlos tem 7 anos. Aos 5, pegou fogo à casa com mais um primo de 11 anos na véspera de Natal. Estavam os dois sózinhos.
[...]
O Zé Carlos tem 7 anos. Aos 6 entrou para a escola. Bate em todos e furta de preferência objectos novos que os outros meninos levam. Se apanha animais no recreio onde brinca, mata-os com requintes de malvadez.
[...]
O Zé Carlos tem 7 anos. Quando o vejo pela primeira vez em consulta faz-me um desenho livre. Tem sete cruzes, sete, e uma igreja e um céu. Cada cruz a um pertence, explica-me:

«Esta é pelo meu pai que está na prisão. Esta é do avô que morreu primeiro e esta é da avó que morreu depois. Esta é do meu tio que estava doente e esta é do meu primo que agora foi para a tropa e já não mora lá em casa»

Das duas que sobram, uma sobrevoa o desenho, enorme, com um Cristo crucificado.
«Já vi uma Bíblia assim» - e com os dedos mostra-me uma espessura de lombada grossa.
«E a última cruz?»
«É uma cruz voadora, é de quem a agarrar.»
Pergunto se não há vivos neste desenho.
«Jesus é vivo mas já está morto.»
[...]
O Zé Carlos é um rapaz de 7 anos. Se tivesse sete vídas psíquicas, julgo que estaria já a viver no limiar da última. Vem à consulta acompanhado pela mãe, mas o verdadeiro pedido de ajuda é o da escola, não o da família.. A mãe é uma mulher jovem, ainda na casa dos vinte e já com cinco filhos. o Zé Carlos, o mais velho dos irmãos, vive com a avó materna. As duas crianças seguintes vivem com os respectivos pais. Só os dois mais novos é que vivem com a mãe e com o actual companheiro desta.
[...]
É uma mulher que parece ter um discurso sempre distante de uma ressonância afectiva do que me narra [...] e descreve-me o seu actual companheiro que considera uma pessoa frágil com quem se identifica:
«Só tem o problema da bebida. Mas mesmo bêbado não é agressivo, anda a cair e é só isso. Até é meigo nessas alturas e mais brincalhão que o normal.» Instantes atrás mostrara-me uma nódoa negra marca viva de uma agressão recente deste homem.


* * *

Nas histórias de crianças que passam por negligência, maus tratos ou abusos encontramos vulgarmente um peso do que chamamos «perturbações transgeracionais». As raízes do actual mal afundam-se muitos anos atrás, em gerações precedentes
[...]
«Has-de passar tantas ou piores das que eu passei», dizia uma mãe maltratante ao seu bebé de meses que segurava que segurava no colo.
[...]
*
A este propósito, deixem-me falar-vos de uma história da Andreia de 9 anos. Conhecia-a num grupo de deslocação à praia de um grupo de crianças que em comum tinham um passado de desamparo emocional.
Uma estrela do mar agonizava ao calor de uma maré vazia em que, com certeza, fora apanhada desprevenida. As suas cinco pontas eram circundadas por seis pernas em círculo. A conversa entre este grupo de três crianças foi assim:
Nelson: «Matamos ela?»
Sílvia: «Matamos.»
Andreia: «Não. Põe outra vez ela ao mar.»
Sílvia: «Deixa.»
Nelson: «Porquê?»
Andreia: «Não vês que no mar deve haver quem trate dela?»
Sílvia: «Pois.»
Nelson: «Vou pôr quando a maré chegar.»
[...]
nem todos podem manter esta capacidade de repararação como a Andreia.


Sunday, October 25, 2009

gente feliz... com história!

de: Oprah.com

Em outubro de 2009, Oprah viajou para Copenhague, capital da Dinamarca, para apoiar a candidatura de Chicago para os Jogos Olímpicos de 2016. Bem, Chicago não foi escolhido, mas isso não impediu Oprah de desfrutar de sua primeira visita ao país que é considerado um dos locais mais felizes na terra.
Nos últimos 30 anos, pesquisadores científicos têm chegado à mesma conclusão, de forma consistente: os dinamarqueses são mais felizes do que o resto do mundo. No mapa do mundo "da felicidade", um mapa criado por um psicólogo social na Inglaterra, -Suíça, Áustria, Islândia e Dinamarca vêm imediatamente abaixo na escala de felicidade. Canadá vem em número 10, enquanto os Estados Unidos é um distante 23. Então, o que torna os dinamarqueses tão felizes?
Oprah encontrou com Nanna Norup, residente em Copenhaga, para descobrir. Enquanto andam pelas ruas de paralelepípedos, Nanna explica algumas das diferenças entre a Dinamarca e Estados Unidos. Por exemplo, em Copenhague, as pessoas são ambientalmente muito conscientes. Um terço da população anda de bicicletas pela cidade, muitos deles com sacos de supermercado ou crianças pequenas. Sem-abrigo, pobreza e desemprego também são extremamente raros neste país de 5,5 milhões de pessoas. Se você perder o seu emprego, Nanna diz que o governo continua a pagar até 90 por cento do seu salário durante quatro anos. E não se preocupe ... saúde é livre para todos.

Monday, October 19, 2009

para pensar...


Um habitante dos subúrbios americano anda de carro aproximadamente 6500km por ano, só para ir e vir do trabalho. Este percurso, multiplicado por todos os suburbanos que se dirigem diariamente para o seu trabalho, representa um consumo de 90 milhões de litros de combustivel, uma produção de duzentos e dezanove milhões de toneladas de dióxido de carbono, 11 milhões de pneus gastos e smog em quantidade em todas as grandes cidades.

O trabalho no domicilio permitiria alcançar economias substanciais.

Estatísticas recentes demonstram que, se metade dos suburbanos efectuassem o seu trabalho em casa, um dia por semana, utilizando (computador, fax e telefone), seria possível economizar 2,3 milhões de dólares em combústivel.

Além disso, 7650 vidas por ano seriam poupadas graças a um trânsito diário menos intenso.


(Uma Casa que Cura - Robert Denryck)


Saturday, October 17, 2009

A identidade em segunda mão: a narrativa emprestada

Underground é um livro diferente da restante linha de romances escrita por Haruki Murakami.

Na primeira parte temos os variados relatos de todos os que foram vitimados pelo atentado com gás sarin no metro de Tóquio a 20 de Março de 1995 e ficaram com mais ou menos sequelas (cerca de 6000 pessoas) ou dos familiares das vítimas que sucumbiram, bem como do pessoal de assistência médica.
No livro II, temos o depoimento de membros da seita Aum Shinrikyo, (Seita Verdade Suprema) liderada por Shoko Asara - o mandante do atentado, posteriormente condenado à morte tal como alguns dos acólitos que executaram as operações no metro.

Diferentemente dos relatos das vítimas, há uma interacção verbal considerável entre Murakami e os seguidores da seita, que visa esclarecer qualquer ponto mais hermético para quem lê.

Entre os dois livros, Murakami tece algumas reflexões, nomeadamente à estrutura mental –ou ausência dela, que permite que seitas como a Aum proliferem.
Abaixo, alguns exertos.

* * *
do Unabomber, publicado no New York Times em 1995:

O sistema organiza-se de maneira a colocar pressão sobre aqueles que não se conformam com ele. Os que não são conformes ao sistema são doentes; fazê-los conformar é a cura. Consequentemente o processo de poder que procura atingir a autonomia é quebrado, e o individuo é subordinado a processos de poder dependentes de outrem, que o sistema obriga a cumprir. Procurar a autonomia é visto como uma doença.

[…] o modus operandi da Unabomber é practicamente idêntico ao da Aum […] O argumento que Kaczinsky apresenta está essencialmente correcto. Muitas das partes do sistema social em que nos inserimos e em que funcionamos têm de facto, como objectivo reprimir a autonomia individual ou nas palavras do provérbio japonês: “a unha que se destaca é cortada rente” […] Kaczinsky descurou – com ou sem intenção – um factor importante. A autonomia não deixa de ser a imagem invertida da dependência de outrem. Se uma pessoa for abandonada em bebé numa ilha deserta não terá qualquer noção do que significa autonomia. A autonomia e a dependência são como a luz e a sombra presas na órbita gravitacional uma da outra, até ao dia em que, passado um período considerável de tentativas e fracassos, cada indivíduo consiga encontrar o seu próprio lugar no mundo.
Os que não conseguem encontrar esse equilíbrio, como talvez tenha sido o caso de Shoko Asahara, terão de compensar através da criação de um sistema limitado (embora na verdade bastante eficaz) […] Os esforços para superar as próprias deficiências fizeram com que ficasse preso num circuito fechado. Um génio aprisionado numa lâmpada com um rótulo a dizer “religião” que ele começou a colocar no mercado como uma espécie de experiência partilhada […] Também ele teve certamente o seu próprio satori, atingiu alguma espécie de valor paranormal. Sem essa extraordinária inversão de valores do quotidiano, Asahara nunca teria sido tão poderoso e carismático. Numa certa perspectiva, a religião primitiva transporta sempre consigo uma aura especial que emana da aberração psíquíca.
Para obter a autodeterminação que Asahara providenciava a maioria daqueles que se refugiaram na seita Aum parece ter depositado tudo o que possuía em termos de identidade – cofre e chave – nesse banco espiritual chamado Shoko Asahara.
[…] Tinham finalmente alguém que olhava por eles, que os poupava à ansiedade de enfrentarem sozinhos as situações novas e os libertava de qualquer necessidade de pensarem por si mesmos.
[…] Só Shoko Asahara lutava: a maioria dos seus seguidores era simplesmente engolida e assimilada pelo seu ego sedento de batalhas […]. Não eram vítimas passivas: procuravam activamente ser controladas por Asahara. O controlo mental não é algo que se possa obter ou entregar de modo tão simples. É uma dança a dois.
[…] a pessoa a quem confiámos o ego oferece-nos uma nova narrativa. Entregámos-lhe a verdadeira, o que recebemos em troca é uma sombra. E, depois do nosso ego se ter fundido noutro, é inevitável que adoptemos a narrativa por ele criada.
E que tipo de narrativa é esta? Não precisa de ser nada particularmente sofisticado, nada de complicado ou refinado. […] De facto quanto mais esquemática e simplificada, melhor. Um pechisbeque, umas sobras requentadas serão o suficiente. Assim como assim, a maior parte das pessoas está farta de cenários complexos e multifacetados.
[…]
Shoko Asahara era suficientemente talentoso para conseguir impor a sua narrativa requentada a outras pessoas (na sua maior parte, era disso mesmo que elas vinham à procura.) Era uma história mal-amanhada, risível […] A partir desta perspectiva, num sentido limitado, Asahara acabava por ser um grande contador de histórias, capaz de antecipar o espírito da época. Não se deixava tolher pela noção, consciente ou não, de que as suas ideias e imagens eram lixo reciclado.
[…]
Quaisquer que fossem as deficiências da narrativa, elas eram as deficiências do próprio Asahara, logo, não representavam qualquer obstáculo para os que escolhiam unir-se a ele […] Irremediavelmente maculado pela paranóia e pelo delírio, desenvolvia-se um novo pretexto, grandioso e irracional, até já não haver retorno possível…
Era esta a narrativa oferecida pela Aum, pelo lado deles. Estúpida, poder-se-á dizer. E é-o, sem dúvida. Quase todos nos rimos do cenário extravagante e absurdo que Asahara desenhava. Rimo-nos por ter fabricado um disparate pegado e zombámos dos seguidores que eram atraídos por aquele isco para malucos.
[...]
Já alguma vez ofereceram alguma parte do vosso Eu a outra pessoa (ou a algo), assumindo em contrapartida uma outra narrativa? Não teremos todos nós já confiado parte da nossa personalidade a um qualquer sistema ou ordem superior? E se o fizemos, não terá acontecido esse Sistema ter, a dada altura, exigido de nós algum tipo de loucura? A narrativa que agora é vossa, será ela real e verdadeiramente vossa? Os vossos sonhos serão realmente os vossos próprios sonhos? Não poderão ser as visões de outrem que mais tarde ou mais cedo se poderão transformar em pesadelos?

(Underground - Haruki Murakami)

Thursday, October 15, 2009

muitas coisas p/ comentar mas... pouco tempo para o fazer



embora o caso em si seja desinteressante, já levantou poeira nos meios de comunicação, provávelmente na falta de assunto melhor.

A verdade é que o vídeo é um espectáculo de mau gosto sobre si mesma do príncipio ao fim. A actriz Maite Proença debocha com Portugal e portugueses e ainda se lembra de cuspir no final do vídeo.
Do ponto de vista psicológico não deixa de ser fascinante a necessidade de atirar lama a uma nação que diz gostar muito; parece que mesmo gostando, (?) há uma violência latente, interior, que é preciso atirar cá para fora a qualquer preço, mesmo usando meios mesquinhos.
Quando vi o vídeo na comunicação social fiquei com uma única nota a ecoar na mente:
-porquê isso?!

Depois lembrei que não faz muito tempo, ela foi autora de uma opinião, em que defendia a caça... como meio de os rapazes exteriorizarem a violência...

Na altura foi contestada, é claro, por todos os que respeitam os animais e sobretudo por todos os que não acreditam na violencia como modo desejável de resolver seja o que for.

Mas há muitos tipos de violência... e nesse vídeo tambem há violência, insidiosa e desnecessária

ou forma de expressar desastradamente algum incómodo interior

Como argumento justificativo ela só encontrou um pouco convicto " acho que está faltando humor nos portugueses".

Então 'tá.

Quanto ao argumento mais que batido tipo-último-recurso que ninguem se deveria sentir ofendido, isso é próprio de quem não tem auto-estima sólida e só procura elogios, bla-bla-bla, acho que é sem comentários, porque não está causa o alvo mas o despropósito de um comportamento pouco saudável.

E, para mim não interessa serem brasileiros, portugueses ou qualquer outra nacionalidade, minha pátria é o planeta terra e todos os seus habitantes deveriam ser irmãos (não estou falando só de pessoas, mas de todos os seres).

Há, há, deixem-me lá expressar a minha utopia.

Utopias à parte, que tal um pouco de bom senso e educação?!

Já li várias palavras interessantes e inteligentes sobre o tema, mas nada me parece tão bem neste momento como deixar nas mãos da querida Hazel algumas considerações doces e firmes sobre o assunto.

E que as aparências, como algumas pessoas mais argutas percebem, nem sempre são o que parecem... rss... e até ficamos a saber que um três invertido pode ser bem mais que... um três invertido!

Tuesday, September 29, 2009

a importancia do agora...


[...]
Sim, a felicidade é tênue, tem a pureza de um momento fortuito e ao mesmo tempo profundo, que marca o coração e a alma de quem se abre para vivê-la. O amor que brilha no coração de alguém que também amamos, pode ser fugidio e se não o colhermos quando acontece, pode se distanciar de nós, esquecido e desprezado, sem cumprir a sua missão de nos banhar o coração com uma doçura maravilhosa! Um abraço dado e recebido num momento de emoção traduz tanto, que as palavras se mostram desnecessárias e pobres, depois dele.
No agora, sentimos. Verdadeiramente. Seja dor, ou felicidade. Vivemos integralmente a realidade de nossas almas. E nos conectamos com o Ser que nos habita e que nos ama como ninguém!
Pensar sobre a vida, não é o mesmo que viver a vida. Será que é pequena esta diferença, ou é toda a diferença do mundo?
[...]
Enfim, vamos nos convidar a viver cada instante da forma mais completa possível? Ouvindo, sentindo, percebendo-se, entregando-se? Veremos, assim, quanto da nossa vida já desperdiçamos, infelizmente sem que possa haver retorno para isto. Mas um pequeno instante bem vivido pode ser inesquecível, transformador, se estivermos atentos a ele.
[...]


*excerto de um dos textos no somostodosum desta semana*

Thursday, September 17, 2009

voce sabe o que é um savant?!


(caracterização dos savants)



Daniel_Tammet, (primeiro à esquerda) é talvez seja um dos mais conhecidos savants da actualidade, embora de forma alguma o único. O ponto especial é que ao contrário da maioria dos savants, ele não perdeu competencias sociais -se relaciona bem interpessoalmente. A foto foi retirada do blog dele


o site de Daniel_Tammet

Wednesday, September 09, 2009

só tenho uma palavra...

( http://www.portaldaliteratura.com/livros.php?livro=3666 )

...acerca dos livros de Haruki Murakami:


S-O-B-E-R-B-O-S.
*
Depois do espantoso Kafka virei-me para Crónica do Pássaro de Corda, imenso e igualmente fascinante.


Friday, August 28, 2009

só mais um bocadinho...



Ai que prazer


não cumprir um dever.


Ter um livro para ler


e não o fazer!


Ler é maçada,


estudar é nada.


O sol doira sem literatura.


O rio corre bem ou mal,


sem edição original.


E a brisa, essa,


de tão naturalmente matinal


como tem tempo, não tem pressa...


Livros são papéis pintados com tinta.


Estudar é uma coisa em que está indistinta


A distinção entre nada e coisa nenhuma.




Fernando Pessoa - Liberdade


Tuesday, July 21, 2009

até já...

Seja o que for que aconteça
Em qualquer situação,
É meu desejo
Que o meu espírito se mantenha
Sem fronteiras.
(poesia Waka, num livro de Reiki)
Vou estar ausente umas semanas. Voltarei.

Monday, July 20, 2009

A Casa da Praia do Açucar



Este é um recem-chegado à minha familia de livros - uma oferta - e foi para a fila à espera da sua vez... rss. Mas estou com vontade de o ler e deixo a sinopse:

Helene Cooper é uma jovem descendente de duas dinastias, que remontam ao primeiro grupo de escravos libertados que partiram de Nova Iorque em 1820 para fundarem a Libéria. Helene cresceu na Praia do Açúcar, junto ao mar, onde se situava a mansão familiar, de vinte e duas divisões. Foi uma infância cheia de criados, carros vistosos, uma villa em Espanha e uma fazenda no interior. Quando Helene tinha oito anos, os Cooper adoptaram uma menina — um hábito vulgar entre a elite liberiana. Eunice, uma rapariga da etnia Bassa, tornou-se, de repente, conhecida como «filha da senhora Cooper». Durante anos, as filhas dos Cooper beneficiaram do aparato da riqueza e da vantagem da sua posição social. Mas a Libéria era como uma panela de água a ferver. E, em 1980, um grupo de soldados fez um golpe de Estado, assassinou o presidente e executou os seus ministros. Os Cooper e os amigos foram aprisionados, abatidos a tiro, torturados e as suas mulheres e filhas violadas. Depois de um brutal ataque, Helene, Marlene e a mãe fugiram da Praia do Açúcar e, depois, para a América. Mas deixaram Eunice para trás… Do outro lado do Mundo, Helene cresceu e tornou-se uma conhecida repórter, trabalhando para o Wall Street Journal e o New York Times e viajando por todo o mundo, mas evitando sempre África. No entanto, em 2003, uma experiência que quase a vitimou, no Iraque, convenceu-a de que a Libéria, tal como Eunice, não podia esperar. Sendo, simultaneamente, uma narrativa muito pessoal e uma análise de um país violento, A Casa da Praia do Açúcar é um relato de tragédia e perdão, contado com uma sinceridade inabalável e o humor de alguém que foi capaz de sobreviver.
HELENE COOPER é correspondente diplomática do New York Times. Antes desse posto, foi editora-adjunta da página de opinião do New York Times, depois de doze anos passados como repórter e correspondente no estrangeiro do Wall Street Journal. Helene Cooper nasceu em Monróvia, na Libéria, e reside na área de Washingon D. C.



a autora, Helene Cooper

mais um livro lido



O livro Michelle - uma biografia já está na secção dos lidos. Do todo, recordo algumas passagens que fizeram com que a parceria Michelle-Barack enquanto casal funcionasse e hoje seja uma realidade sólida:

"Houve um período importante de crescimento no nosso casamento [...] Ele estava no senado estatal, tinhamos filhos pequenos e era difícil. Eu estava a lutar para tentar que as coisas funcionassem para mim".
Michelle foi sempre hiperorganizada e uma pessoa que gosta de levantar cedo e assim decidiu passar a ir ao ginásio às quatro e meia da manhã, em parte para manter a forma, em parte para obrigar Barack a tomar conta das coisas em casa.
[...] Eu estava sentada com a minha bebé ao colo, zangada, cansada, fora de forma. Eram quatro da manhã, hora da bebé mamar. E o meu marido estava deitado ali, ao meu lado, a dormir". Ela percebeu que, se não estivesse ali, ele tinha de lidar com aquilo. "Quando voltava para casa depois do ginásio, as crianças já estavam levantadas e já tinham comido. Foi uma coisa que eu tive que fazer por mim" [...] Percebi que que não podia viver a vida cheia de ressentimento; isso iria destruí-la e envenenar a relação.

E algumas outras questões muito válidas para qualquer agenda de debate sobre a vida actual:

Uma semana ou duas após a vitória do marido, Michelle tentou acalmar a especulação e declarou que enquanto primeira-dama se perspectivava como "Mãe-em-Chefe". Em vez de acabar com a especulação esta declaração teve como efeito abrir a discussão entre as mulheres. Foi bom Michelle ter-se sentido obrigada a realçar o seu lado de mãe ou não? Há pouco mais de uma década a mulheres que trabalhavam sentiam que não se podiam dar ao luxo de referir o seu lado maternal. Será que isto é um progresso? [...] uma jornalista exprimia a sua preocupação afirmando a que aquilo a que estávamos a assistir era a uma "maternalização" de Michelle que, segundo ela, estaria a ser forçada a assumir um papel convencional e não ameaçador e a ser retratada pelos média como se a única coisa importante acerca dela fosse a sua capacidade de ser mãe.

"Eu preciso de poder tomar conta de mim e das minhas filhas [...] Tenho de estar numa posição em que se acontecer alguma coisa menos boa ou inesperada, quer dizer, onde é que essas pessoas que criticam a minha competência para fazer parte dos conselhos de administração vão estar se eu tiver de tomar conta das minhas crianças? [...] eu tenho de manter um certo grau de credibilidade profissional, não apenas porque gosto, mas porque não quero vir um dia a estar numa posição de vulnerabilidade com as minhas filhas"

Para as mulheres negras da América, é claro, Michelle Obama é um símbolo particularmente importante. Uma mulher tão forte, com opiniões e autoconfiante que tem uma relação de amor sólida com um marido que a respeita e admira é uma imagem sobre a qual uma série de jornalistas negras se sentiu impelida a escrever a seguir às eleições. "A nova primeira-dama vai ter a opotunidade de acabar com os esterótipos desagradáveis que existem ecerca das mulheres negras e, em geral, educar o mundo sobre a cultura negra americana", escreveu Allison Samuels na Newsweek num artigo intitulado "O que Michelle Obama significa para nós."

Sunday, July 19, 2009

falar de oniomania


uma compulsão de personalidade provavelmente motivada por um alto grau de frustração não assumido... e encoberto por uma sociedade que estimula o desperdício e o supérfluo.

Uma das taras características de um certo modo de vida é aquilo que, em linguagem psiquiátrica, se designa por oniomania, isto é, a tendência obsessiva para fazer compras. Trata-se, com efeito, de um dos legados das nossas sociedades contemporâneas. Tendência essa que, de resto, ameaça expandir-se e transformar-se num síndroma social do consumismo compulsivo e larvar das futuras relações sociais se não atalharmos a tempo a evolução de tudo transformar em valor de troca os bens e serviços da mais variada natureza.

Ao contrário do século XIX em que a preocupação maior dos economistas era como produzir em mais quantidade, o principal motivo de apreensão dos actuais responsáveis empresariais prende-se em encontrar os meios e as estratégias que melhor garantam o crescimento das despesas por parte dos consumidores de forma a assegurar a continuidade do ciclo económico da produção-rendimento-despesa, para o que contam com os mais variados instrumentos, de uma sofisticação e eficácia jamais vista.

texto completo
*
Comprar compulsivamente é sinal de doença. Estourar o orçamento repetidamente é um vício igual ao alcoolismo. A doença tem até nome: oniomania, aquele que necessita comprar assim como o dependente químico necessita da droga. O desejo incontrolável de gastar tem tratamento: inclui acompanhamento psicológico e medicação. Mas é fundamental que a pessoa reconheça que está doente e precisa de ajuda.

Os especialistas ainda não sabem precisamente o porquê da oneomania ser mais comum em mulheres, mas acreditam que o motivo está diretamente relacionado a condições culturais. Os fatores que levam a doença a afetar principalmente as mulheres são objeto de estudo da equipe do AMJO.
Para Fuentes, a doença pode estar associada a transtornos do humor e de ansiedade, dependência de substâncias psicoativas (álcool, tóxicos ou medicamentos), transtornos alimentares (bulimia, anorexia) e de controles de impulsos.

A oneomania também emerge para aliviar sentimentos de grande frustração, vazio e depressão. É um desejo de possuir, de ter poder, que fica reprimido. Ao não conseguir dar vazão ao seu desejo, a pessoa sofre uma enorme pressão interna que a leva à necessidade de possuir coisas novas como única forma de prazer [...] Os oneomaníacos têm o consumo como vício, assim como um alcoólatra que necessita da bebida. Enquanto está comprando, a pessoa sente alívio e prazer dos sintomas, que passado um tempo voltam rapidamente. O efeito do ato de comprar é semelhante ao de tomar uma droga.
( daqui)

Saturday, July 18, 2009

dasatravancar a vida


















É espantosa a quantidade de ninharias que guardamos. As nossas casa e vidas guardam-nas constantemente. Dá-se o mesmo com a mente. As bagatelas estão sempre a intrometerem-se na nossa mente. Tente concentrar-se no silêncio um minuto e verá como é difícil. Os pensamentos fogem continuamente de e para o cérebro - os pensamentos aleatórios entram no nosso consciente a partir de vários compartimentos da base de dados da memória, como se o cérebro fosse uma máquina de funcionamento automático. Com a casa é a mesma coisa, em todos os cantos de todas as divisões há objectos aleatórios - de toda a espécie. pequenos, grandes, divertidos, úteis, ninharias - que incomodam e causão tensão. As nossas salas desarrumadas, armários muito cheios e secretárias empilhadas podem causar muito stresse. Normalmente, não reparamos nisso, mas depois de tentarmos passar para outra, ou de essa ideia se apoderar de nós, as ninharias da nossa vida começam a dominar-nos - e, com frequencia distraem e irritam-nos. Cria-se barafunda material e imaterial na nossa mente.

Decidir se algo é ou não uma bagatela é uma decisão inteiramente subjectiva. O mais prezado dos bens de uma pessoa é uma ninharia para outra
[...]
Tudo aquilo que lhe transmite alegria, faz rir e inspira - seja por que razão - é precioso para si, visto que lhe confere energia nutriente. Rodear-se de coisas que adora e têm signficado para si fortalecê-la-á. Isto porque a energia que vibra à volta dessas coisas está sincronizada com a sua.

[...] quando estiver cansada de qualquer coisa - um livro, um jornal, um saco, uma peça de roupa, um objecto decorativo, um quadro, uma cortina, ou qualquer outra coisa, seja esta grande ou pequena, sem valor ou preciosa, quando ela tiver perdido o seu significado especial para si ou perdido o seu brilho... deite-a fora, venda-a ou dê-a!

O desatravancamento é incrivelmente libertador. Isto porque raramente vemos a nossa subtil inclinação para dar tanto valor aos sistemas de suporte material. Quando percebemos que tão poucas dessas coisas materiais nos proporcionam realmente alguma felicidade, todas as ninharias na nossa vida se tornam mais vísiveis - e é assim que começamos a compreender que desatravancar tambem é uma questão relativa à mente.

Eu entendi-o quando me retirei pela primeira vez ao mosteiro de Kopan, em Katmandu. Decidi que precisava de alguma espiritualidade na minha vida e inscrevi-me num curso semestral de meditação. O quarto que me atribuiram era tão básico que quase chorei. Tinha uma cama, uma mesa e uma cadeira. Nada possuía para decoração, nenhum perfume, cosmético, rádio ou livro, era permitido - absolutamente nada. Tudo o que eu tinha era paredes nuas, as condições mínimas e a minha mente. No entanto, para mim, esse mês foi a experiência que mais mudou a minha vida. Obrigada a operar no modo de sobrevivência, virei-me para dentro e, ajudada pelos monges e monjas de Kopan, descobri o mundo da minha mente. Com nada que me distraísse, desenvolvi uma crescente consciência do meu ambiente. Eu respirava o ar intensamente frio e limpo [...]
A medida que sintonizei a mente em mim mesma, comecei a sanear as impurezas, opressões e pensamentos negativos da minha mente. O processo foi doloroso e catártico, como se estivesse a lavar roupa suja.
Quando nos pomos a esfregar pela primeira vez, toda a sujidade sai e enlameia a agua, por isso, sentimos a dor, o sofrimento e o eu a resistir - ficamos doentes, cedemos à auto comiseração e só queremos desistir. Todavia, a espiritualidade desse lugar e o curso de meditação ajuda-nos a lidar com isso. Por isso aguentamos aquilo, até a água suja lentamente clarear. A nossa mente desenvolve uma grande uma grande sensibilidade à energia do tempo e do espaço.

Esse foi o maior desatravancamento que alguma vez fiz à minha mente e à minha vida. O resultado foi que me sentia mais leve e mais viva. Agora volto a Kopan pelo menos uma vez por ano

(168 Maneiras de Desimpedir a sua Casa - Lillian Too)

Friday, July 17, 2009

De Bagdá com muito amor -recomendo! :)


Lembro de que quando encontrei o livro, já tinha ouvido falar dele. Abri e folheei, parei ao acaso e lembro de ler algo mais ou menos assim (estou a citar de cor) :

...do barracão continuavam a vir barulhos e por um momento quase decidimos atirar uma granada lá para dentro que faria todo o trabalho sujo. Mas há coisas que simplesmentte estão destinadas a acontecer de outra forma.

Entramos de rompante preparados para atirar e descobrimos ao fundo, um pequeno cachorro que olhava para nós.

entrevista

O cão, Lava, vive hoje algures na Califórnia na companhia dos donos, do gato Cheddar e de outro cão, uma boa vida bem diferente da que provavelmente teria em Bagdá. De facto, há coisas que estão destinadas a acontecer de maneira diferente.

acontece todos os dias... aos milhares!


(imagens e texto daqui)

A cena evocada no texto, acontece todos os dias... é um cenário que se repete com poucas variações milhares de vezes, ceifando vidas em toda a parte do planeta.


A verdade é que todos podemos fazer algo para mudar isto.

* * *
Não há como fugir. Impossível romper as paredes de concreto e ferro. Está cercado por homens que usam armas compridas – agulhões elétricos – e aventais manchados de sangue. Tudo em volta cheira a sangue, odor vivo dos que chegaram antes. Já não tem forças para caminhar com as próprias pernas. Eles sabem disso e o deixam parado por alguns instantes – etapa estratégica antes do último corredor (lá precisam mantê-lo em pé).

Momento fatídico, irreversível, quando a realidade mostra as garras afiadas e afugenta a última nevoa de ilusão. O estado de pânico chega ao ponto Maximo: todos os músculos estão tensos; a pulsação cresce ainda mais; o ritmo respiratório cresce, com as narinas inflando em excesso para absorver mais ar; os olhos dilatam em busca de outros estímulos; do abdômen os gases descem, suscitando fezes e urina. O organismo saturado diante da morte anunciada.

No começo era apenas o medo…

Eles chegam no campo resolutos, com os mesmos agulhões, e o identificam. Está marcado para a Viagem. Tenta fugir, acuado, mas leva várias estocadas elétricas. A carne arde e se retesa. Uma complexa reação química começa no cérebro, atingindo todas as células e fibras . E a resposta do corpo à violação do corpo. Debate-se em vão, ataca, em vão. E amarrado, fortemente, é conduzido para o interior do grande carro. Há outros como ele, um em cada compartimento. Estão atordoados, sem entender por que foram expulsos dali. O trajeto é sinuoso, cheio de solavancos, vibrações irritantes, paisagens estranhas. De vez em quando uma nova parada. Mais um embarcado, ofegante, perplexo.

A chegada é violenta, então o medo aumenta. Recebe novas estocadas por todo o corpo, enquanto é conduzido por um angustiante labirinto de corredores e rampas. Para não ser torturado ainda mais, caminha, trôpego, por onde querem que caminhe.
Dezenas de seres iguais a ele gritam, aterrorizados. Como eles passam por vários banhos químicos, que irritam a pele e os olhos.

Não há como fugir. Impossível romper as paredes de concreto e ferro. As fezes, incontidas, escorrem pelas pernas, a urina escorre. Então uma figura familiar lhe aparece na frente, sendo levada pelos homens. Reconhece-a pelo cheiro, pelas imagens de outros tempos, afagos pueris. Os dois olham-se por alguns breves segundos. Ela está calma, resignada, e transmite a ele essa paz incomum. Os algozes não percebem, mas dos olhos dele vertem grossas lágrimas, que se misturam ao sangue escorregadio do chão. Então o pânico recua, os nervos ganham elasticidade, o coração bate compassado, a respiração sossega. Sente-se tranqüilo, estranhamente tranqüilo diante do destino que lhe reservaram. Busca na memória os acontecimentos bons que lhe marcaram a vida; ignora os momentos difíceis da sua condição. Lembra dos espaços abertos, águas e gramíneas, seres iguais em volta. O coração sorri.

Está pronto. É hora de ser conduzido ao último corredor do abatedouro. Depois do derradeiro choque elétrico vai se transformar, para eles, num monte de carne diferenciada, fonte de proteína para todos os paladares. Mas sabe, porque recebeu a Anunciação, que depois do golpe fatal, quando o sangue começar a jorrar por todos os cortes industrializados, romperá concreto e ferro, paredes, numa fuga desenfreada em busca do Éden selvagem.

*Texto retirado do livro “As Víceras e o Coração” de Jaime Ambrósio.*
Jaime Ambrosio nasceu em Anita Garibaldi, SC, em 1958. É formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina, tendo também freqüentado o curso de Letras. Participou de movimentos literários na vida acadêmica e foi premiado em alguns concursos, com destaque para o de contos da Sinergia. Em 1998, ganhou o Premio Cruz e Sousa com o livro Por um punhado de contos (historias do bem, historias do mal), publicado pela FCC Edições. Jornalista profissional, atua como editor de texto no SBT, em Florianópolis.
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Thursday, July 16, 2009

Segredos da Bíblia II





O Cântico dos Cânticos, atribuido ao Rei Salomão - ainda que tenha sido escrito, muito provavelmente, por uma mulher - é o livro mais polémico da Bíblia.
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Entre os judeus foi necessário atribuir o poema ao Rei Salomão para que fosse aceite como livro revelado por Deus.
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A sexualidade sai assim, definitivamente, do ambiente bíblico da sacralidade. Hoje os juramentos fazem-se sobre o livro da Bíblia, (1) mas no tempo dos patriarcas, ou seja os da Bíblia, os juramentos faziam-se, como é o caso de Abrãao com seu escravo , colocando as mãos debaixo dos genitais, que representavam para os judeus o centro da personalidade humana, a mais profunda e respeitável
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A doutrina do Limbo durou séculos. Milhões de mães sofreram porque, por alguma razão, os seus filhos tinham morrido antes de serem baptizados. O mesmo acontecia com as crianças que nasceram já mortas e que portanto não podiam ser baptizadas, como sucedeu com uma irmã do papa Wojtyla. Como não tinha podido ser baptizada, nem sequer lhe fizeram funeral. Razão porque, quando João Paulo II quis reunir toda a família num único túmulo, faltaram os ossos da sua irmã. Onde teriam deixado os seus restos mortais?. É fácil supor a dor da mãe do futuro Papa, que era, tal como o seu marido, militar, profundamente devota, e que, logicamente, acreditava na então verdade católica do Limbo. Mais do que uma vez pensei - e escrevi-o noutras ocasiões - que talvez não tenha sido por acaso que foi o Papa Wojtyla que, tantos séculos depois, quis eliminar do Catecismo Católico Universal o Limbo das crianças, sem sequer dar explicações. Provavelmente porque não podia dá-las. A explicação mais lógica é que ele tenha podido pensar: agora que sou Papa e posso fazê-lo, vou acabar de vez com o Limbo. Assim tenho a certeza de que poderei encontrar-me com a minha irmã no céu sem ter de ir visitá-la ao Limbo

Há quem pense que dentro de alguns anos ou séculos, outro Papa poderá tambem acabar com a existencia do Purgatório, outra criação da teologia católica sem fundamento bíblico.

(A Bíblia e seus Segredos - Juan Arias)

(1) ainda hoje nos tribunais, em depoimentos, em tomada de posse de funções governativas - actos laicos! - se jura com a mão direita sobre a Bíblia dizer a verdade e só a verdade... Algo desnecessário e aberrante, misturar o laico e o que ocupa as funções de sagrado.
E como conciliar isso com o facto de alguem ser de outra qualquer religião, ser ateu ou simplesmente agnóstico?!

Tuesday, July 14, 2009

Prometeu, aquário e os tempos actuais



Prometeu (Aquário) roubou o fogo dos deuses e foi punido por Zeus (Júpiter). Com Júpiter em Aquário, agora é a vez de Prometeu receber a visita de Zeus.

A Astrologia é uma linguagem que usa uma série de símbolos para criar uma identificação entre o homem e o universo – seus pressupostos básicos estão fundados na idéia de que há uma correlação entre os movimentos cósmicos e os eventos terrestres, sejam coletivos ou individuais.

O Zodíaco na antiguidade era considerado como “a alma da natureza”, uma vez que os signos e os planetas expressam motivações, impulsos e padrões de comportamento humanos.
Nas eras homéricas essas imagens tomaram a forma de figuras personificadas como as divindades gregas: Zeus, Poseidon, Afrodite, Hércules, etc.


Como na tradição astrológica, também os mitos surgiram espontaneamente como imagens e representações coletivas em diferentes épocas e culturas e funcionam como um auto-retrato criativo da psique humana.
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Na mitologia grega, os titãs eram gigantes que pertenceram às primeiras gerações das divindades da antiga Grécia.
Prometeu era um deles, filho do também titã Jápeto e da oceânida Clímene.
Seu nome significa “o que vê à frente”, ou o “previdente”. Tinha um irmão, Epimeteu, cujo nome significa “o que vê depois”, ou “o descuidado”. Um pensava antes de agir e era um estrategista, o outro agia antes de pensar, desfrutava o presente, era desprovido de reflexão.

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Prometeu, por ter o dom da antecipação, sabia do resultado da grande batalha de Zeus contra seu pai Cronos, e oportunamente tornou-se seu aliado, orientando-o nas estratégias para vencer a guerra. Também ajudou Zeus durante o nascimento da filha Atena, que depois de dores terríveis saiu pela cabeça de seu pai. A deusa Atena, divindade ligada às estratégias da guerra, em agradecimento ensinou a Prometeu astronomia, matemática, arquitetura, navegação e outras artes.
Assim ele também passou a ensinar aos homens o que havia aprendido. Ao mesmo tempo, idealista e pretensioso, trabalhava para elevar o ser humano acima das origens instintivas, pois seu intuito seria torná-lo mais e mais semelhante aos deuses.


Inquieto, Prometeu torturava-se com a injustiça que percebia ao seu redor: por que só os deuses tinham o monopólio do conhecimento? Por que os homens deveriam contentar-se em viver eternamente dependentes dos poderes e dádivas divinas? Decidido a solucionar essa questão, Prometeu enganou Zeus.
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Ao saber do roubo do fogo, e novamente enganado, Júpiter aplicou em Prometeu um duro castigo. O titã foi acorrentado por Hefaistos, o deus ferreiro (para os romanos, Vulcano) a uma pilastra no monte Cáucaso, nos confins orientais do mundo. Como se não bastasse, uma águia enviada por Zeus diariamente devorava o seu fígado, e este voltava a crescer durante a noite. O flagelo continuaria assim, mês após mês, ano após ano, por toda a eternidade.
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Tempos depois, com a anuência do próprio Zeus, Hércules matou a águia e libertou o audacioso Prometeu. Mas é preciso lembrar: o titã nunca se arrependeu de seus feitos e nem de ter sacrificado sua própria liberdade em benefício dos homens.
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Prometeu representa o impulso pela vida civilizada, o anseio humano de avançar através da tecnologia; rebelde com causa, esse herói semidivino é o princípio humanizador evolutivo, a inteligência humana, que, ao desvendar os segredos da natureza, supostamente terá controle sobre ela. Prometeu abriu o caminho para que os homens pudessem alcançar o progresso e tudo o que chamamos de civilização; o fogo roubado dos deuses nunca foi devolvido, significando simbolicamente que o conhecimento uma vez adquirido nunca mais se perde.

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Com a passagem de Júpiter no signo de Aquário em 2009 poderíamos pensar que Zeus (ou Júpiter para os romanos) está agora na casa onde vive Prometeu (Aquário). Será esta uma visita de reconciliação? A mítica oposição poderá ser apaziguada? Abstraindo a partir do mito, cabem aqui algumas perguntas:
Poderiam o titã e o deus olímpico estabelecer agora um diálogo criativo e inteligente, uma vez que ambos são idealistas e arrojados? E se pudessem compartilhar saberes benéficos para os homens, sem radicalismos e sem punições divinas?
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Conhecimento é poder, e a reflexão que se faz é: até onde ele deve ir?
Em nome do progresso e do desenvolvimento, nossa civilização – caracterizada mais que todas as outras pelo seu forte espírito “prometéico” – tem feito estragos incomensuráveis, e a ação humana contra a natureza nos últimos 100 anos foi devastadora. Seria essa a nossa hybris iluminista e cientificista pela qual estamos pagando um preço tão caro?
Se Prometeu quer a libertação humana através do conhecimento, Zeus neste signo certamente não fará oposição a ele, uma vez que, no contexto astrológico, Zeus (Júpiter) expande e põe em evidência as características simbólicas do signo em que está.
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Não há como brecar ou impedir a evolução da ciência, mas a percepção de que ela precisa de limites éticos e não destruidores para o próprio homem já é um fato consumado. Pode a ciência desvendar os segredos e mistérios da natureza, gerar ou prolongar a vida impunemente? O progresso pode prescindir da degradação ambiental?
Haverá uma percepção cada vez mais clara de que os excessos do consumo desenfreado, o esgotamento dos recursos naturais e das matérias-primas, o aquecimento global, a ganância descomedida e irresponsável são parte de uma mentalidade que pede uma mudança radical e imediata por todos. Não é mais novidade que o processo civilizatório e suas promessas de bem-estar e felicidade não se cumpriram.
Todos sabemos que nossa hybris civilizatória é ecológica, moral e existencial, e o caminho para uma mudança desta trajetória já está sendo trilhado.
[...]
Nosso Zeitgeist prometéico nos avisa: somos a natureza, somos o nosso saber e as nossas próprias criações. Novos paradigmas surgem, e o que mais necessitamos agora são os valores de conexão, cooperação e inclusão. A ética e a justiça, sejam elas dos deuses ou dos homens, mais do que nunca podem e devem estar em comunhão.
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(ler o artigo completo de Tereza Kawall, na constelar deste mês: Zeus e Prometeu, a aliança possível)