Friday, January 09, 2009

momentos de verdade-saltar no vazio e quebrar o ciclo...

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Embora no caso focado pelo texto o exemplo dado seja de uma típica relação disfuncional de casal, proporcionada por expectativas sociais igualmente disfuncionais, a questão é bem mais abrangente, e afinal válida para qualquer outro desconforto seja noutro tipo de relacionamento, numa profissão ou em qualquer outra área de vida. Trata-se em última análise da fidelidade ao nosso mais genuino apelo de alma e capacidades. Ser coerente conosco próprios e com o nosso mais íntimo sentir é o mais importante passo para que o propósito de vida se cumpra e inerentemente nos situe num plano de felicidade e auto-respeito impossível de obter de outro modo
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Existem momentos críticos interiores na vida de toda a gente. Penso neles como momentos de verdade, momentos em que sabemos que algo é profundamente verdadeiro para nós, e que sua aceitação mudará a nossa vida. Pode ser uma revelação interior acerca do que realmente importa para nós, acerca de quem ou o que amamos [...] pode ser uma revelação sobre a natureza da realidade, ou a realidade da divindade, a qual causa uma mudança radical na nossa perspectiva filosófica, religiosa ou mesmo científica, depois da qual não podemos mais percepcionar o mundo e o nosso lugar nele como antes fizéramos. Ou o momento da verdade pode estilhaçar uma ilusão acerca de alguma outra pessoa sobre a qual construímos uma vida ou uma identidade.
A verdade com que estamos confrontados pode parecer "súbita" e totalmente inesperada embora possamos conjecturar mais tarde que era algo que devíamos saber há muito tempo e finalmente irrompeu através da nossa negação ou resistência.
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Foi este o caso de uma mulher advogada, sócia de uma grande firma, cujo sucesso nos lítigios era resultado da sua capacidade de procurar e conseguir o que era melhor para os clientes, de ser a porta-voz e advogada deles, ao passo que era muda em relação à sua própria infelicidade matrimonal e incapaz de mudar a situação. O seu marido era uma geração mais velho. Era tambem um advogado e uma personalidade autoritária que ela tinha desposado muito nova. Era pai, mentor e marido patriarcal dela. Decidia não só o que eles ou ela deviam fazer, mas tambem o que ela devia sentir. Dado que o divorcio era impensável devido à educação dela, tirar o melhor partido da situação exigia que adormecesse e negasse os seus sentimentos, coisa que parecia fazer muito bem, através da concentração de pensamentos e energia na práctica da advocacia. A sua vida era isso quando descobriu uma pretuberância no peito.
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Reagiu sem emoção à possibilidade de ter cancro. Com a sua mente de advogada procurou opiniões sobre quem consultar e marcou uma consulta com o especialista mais altamente considerado. Foi feita uma biópsia, depois da qual devia ir ao consultório do médico. Quando chegou à altura, sentou-se do outro lado da secretária do médico, e a pergunta no primeiro plano no seu espírito era " O que devo fazer?" e não "O que eu tenho?", porque sabia sem que lhe dissessem que era cancro. O médico começou a falar e não ouviu uma palavra do que ele estava a dizer. Pela primeira e única vez na sua vida, estava a ouvir uma voz na sua cabeça. Esta dizia: "Deves divorciar-te". Ao que respondeu em voz alta: "Fá-lo-ei", o que surpreendeu o médico no meio de uma frase.
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Há alguma coisa de inefável que acompanha os momentos de verdade, nos quais sentimento, conhecimento e acção a tomar se ajustam. A clareza do momento faz parar o tempo. Há uma calma interior, uma cassacão do movimento, uma respiração que precede a acção. O momento da verdade ilumina a totalidade da situação e inclui o que agora deve ser feito. É tambem uma experiência de integralidade, quando a informação que evitámos ou as nossas facetas que reprimimos, negámos ou projectámos sobre alguma outra pessoa vêm agora à consciência.
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Era este o caso desta advogada que me disse que sabia que o seu cancro se tinha desenvolvido porque tinha permanecido naquele casamento, que estava a matá-la metaforicamente, e que o cancro tornava literalmente possivel que o fizesse. Começou imediatamente um processo de divórcio, com uma certeza interior que a eficácia do tratamento do cancro dependia de se divorciar.
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Como advogada de litígios, tinha-se convertido numa Valquíria guerreira que entrou em batalhas para a sua firma de advogados e para o seu marido, tal como Brunnhilde obedeceu às ordens de Wotan. Agora, pela primeira vez, dedicou-se à sua própria causa e agiu decisivamente em proveito próprio.
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[...] Segundo todas as aparencias exteriores, era uma mulher que tinha tudo, uma grande casa, um marido bem-sucedido, duas atraentes crianças, Junior League (1), clubes de campo, uma vida invejável. Calhou lançar um rápido olhar para uma pilha de brochuras que acabavam de ser entregues, enquanto o homem que ela tinha detido para falar com ele atendia uma chamada telefónica, e deu por si a ler sobre um programa experimental de doutoramento em psicologia transpessoal(2).
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O que comecou como um folhear casual converteu-se num momento de verdade profudamente transformador da vida dela.

Inesperadamente, ficou inundada de alegria, coisa que pode acompanhar os momentos de verdade. Quando tudo se encaixa um momento como esse, há uma clareza sobre quem se é e quem se pode ser; é um momento de transcendência, um momento sagrado e jubiloso.
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Até ter tido essa brochura na mão, ela não sabia do que estava à procura ou quanto ansiava por levar uma vida mais profunda, mais espiritualmente enraizada, na qual o seu desenvolvimento intelectual tambem tivesse lugar. Nesse momento de verdade e clareza, respondeu com um "sim"! interior que viveria sem hesitações, apesar do ridículo e da oposição do seu marido, família e pais. Era um programa de graduação não reconhecido oficialmente: era apelidado de excêntrico e referiam-se a ele com humor depreciativo como "psicologia translúcida". O pai deserdá-la-ia por causa dela, o marido melindrar-se-ia. A mãe seria infalivelmente critica em relação a ela e teria pena do pobre do marido por permitir tal coisa, e os filhos foram encorajados a ver o que ela estava a fazer a uma luz desfavorável.
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O que vem com os momentos de verdade dá-nos um sentido interior de certeza e clareza [...] sabemos que temos importancia e há sentido e finalidade na vida. É uma epifania, um ponto alto de coerência. [...] seguir a nossa beatitude (para usar a frase bem conhecida do mitólogo Joseph Campbell ), que é um outro modo de descrever o que acontece, tambem requer sacrifício da vida agora obsoleta, e com o sacrifício vem em geral o sofrimento, para os outros, bem como para si próprio dependendo da resistência e do preço de efectuar uma mudança. Escolher uma linha de acção, sabendo que ao fazê-lo está profundamente certo mas não sabendo sual será o custo para si próprio e para os outros, requer coragem.

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Momentos de verdade que mudam o mundo acontecem a individuos que, ao exprimir a sua verdade pessoal, falam a favor de uma ideia cujo tempo chegou e, ao fazê-lo,parecem ligar-se a sentimentos colectivos que já não podem ser contidos ou novamente reprimidos.

O momento da verdade que comecou o movimento dos direitos civis dos anos 1960 ocorreu num autocarro com segregação de Montgomery, Alabama, quando Rosa Parks, uma mulher negra cansada, de meia idade, entrou no autocarro depois de um longo dia como empregada doméstica e se sentou na parte da frente do autocarro porque não havia lugares na retaguarda. Não só se sentou numa secção proibida aos negros, mas tambem se recusou a mudar quando confrontada com a autoridade e foi presa. Seguiram-se manifestações, nas quais cada participante tinha de decidir a arriscar-se a pôr a cabeça no cepo em benefício da igualdade racial e da libertação da opressão. [...] O "não" de Rosa Parks revelou-se como um importante acto de desobediência civil , um acto privado que teve consequencias públicas porque foi beber a algum poço profundo de justiça e coragem nos outros, incluindo Martin Luther King, Jr., que era o pastor de uma proeminente igreja negra em Montgomery.

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(momentos de verdade: momentos críticos pessoais/parte 4)


*d' O Anel do Poder - Jean Shinoda Bolen

(1-O Ouro do Reno-a demanda de poder e o seu custo psicológico/ 2-A Valquiria-o pai autoritario e a familia disfuncional /3-Siegfried-o heroi como uma criança adulta /4-Crepúsculo dos Deuses-a verdade põe fim ao ciclo do poder /5-Libertando-nos do Ciclo do Anel /6-Além de Valhalla-um mundo pós-patriarcal?
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4 comments:

  1. Anonymous5:13:00 pm

    Olá!

    Você conhece o livro "Mulheres que Correm com os Lobos"?

    Me interessei muito por ele logo que comecei a ler suas primeiras páginas. E desde lá tenho procurado fóruns para trocar opiniões, porém não encontrei nada.

    Então fiz um blog para que nós, mulheres, possamos ter a oportunidade de compartilhar nossas idéias a respeito dos contos deste fantástico livro!

    Se quiser conferir:
    lobasquecorrem.blogspot.com

    Um abraço!

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  2. anfibia5:45:00 pm

    fantástico trecho. inspirador.

    estou a procurar o livro aqui no brasil e não acho em lugar algum, nem nos sebos..

    vou bebendo o que vc vai publicando...

    obrigada!

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  3. Que bem me faz vir aqui e ler seus textos, Marian! Como você me ilustra...Obrigada, amiga!

    *Amiga, tem lá no Sam um selo somente para as mulheres especiais, que nos inspiram e que fazem a diferença. E você representa com honra e mérito esta mulher. E o poderá passar para mais 6 mulheres, avisando-as. E aqui estou felizzzzzzzz da vida! Não por ganhá-lo por delicadeza e bondade de amigas especiais, mas por realmente repassá-lo a uma mulher maravilhosa, como voce.


    Grande beijo, querida!

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  4. Ahhhhhhhhh! O nome do selo rsrs: Blog de Ouro

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