Friday, June 20, 2008

animais humanos... dos direitos

De vez em quando, algum ser do imenso clube dos desvalidos que este mundo tem, tropeça em mim, ou eu nele.
Já considerei até a hipótese de ter algum íman secreto ou quiçá um letreiro que me acompanha e só é visível para alguns.
As vezes são animais, outras vezes são pessoas. Faz uns meses que de passagem por uma clínica para tratar de um assunto sem importância e enquanto esperava uns minutos, a senhora da limpeza se aproxima de mim, depois de uns comentários ocasionais a servir de interlúdio começa a despejar uma história que lhe trazia o coração oprimidíssimo.
Tinha ela algum tempo atrás começado a explorar um pequeno terreno de família que ninguém ligava de modo a entreter-se e produzir ainda algum lucro; mas o que se passava no terreno ao lado do seu deixava-a completamente desesperada: o terreno era habitado por um casal com um filho bem pequeno, uns seis anos. Acontece que o casal agredia a criança por tudo e por nada e com extrema violência; agrediam por falar e por não falar por estar parado e por não aparecer quando o chamavam...
a criança é enfezadinha, enfezadinha de dar dó... tem seis mas parece que tem quatro, mirradinho mesmo! vive encolhido com medo de apanhar e nem sabe falar direito. Não entendo aqueles pais. Parece que odeiam o filho...
o miúdo vive completamente negro, ás vezes quase nem se pode mexer. Se visse o olhar dele! Eu faz-me uma aflição que a menina nem imagina, olhe que as vezes até saio dali tão mal disposta que só me apetece morrer, mas o que que uma pessoa pode fazer?!
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Aqui eu tive que parar a senhora e perguntar-lhe se já lhe tinha ocorrido denunciar a situação, é que não só podia fazê-lo como recentemente tem obrigação cívica de o fazer já que a violência doméstica é crime público (felizmente agressões da porta de casa para dentro mudaram de estatuto e a lei aperfeiçoou-se um pouco de 2004 para cá)
Depois tive algum trabalho a explicar-lhe que violência doméstica não é só o marido bater na esposa... é também o inverso (menos comum mas existente) é agressões entre quem partilhe a mesma casa, de pais para filhos. E de filhos para pais. E não é só bater físicamente, é muito mais e mais subtil que isso: toda a coação, intimidação e privação, toda a imposição em suma, de uma vontade sobre outra. Violência sexual. Os maus tratos podem ser emocionais, verbais e psicológicos, assim como ameaças, isolamento social forçado e mesmo intimidação, além de controle económico, são ofensas à integridade e dignidade.
Dei-lhe vários números de denúncia específicos para aquele caso (vêm nas primeiras páginas da lista telefónica) dei-lhe força e apoio para seguir com o que deveria ser a sua prioridade máxima
"-e se depois se vingam de mim?!"
-Não seja por aí. as denúncias não obrigam a identificação de quem as faz. Protegem o anonimato.
Deixei o meu contacto e reiterei a obrigação de denúncia imediata à policia.
Ficou à beira de dar um passo inédito na vida dela, a intervenção activa e aumento de consciência e direitos.
Tempos depois tinha um recado à espera: a criança tinha sido retirada aos pais. E eles indiciados por crime.
A senhora não cabia em sí de contente e estava obviamente orgulhosa
Eu fiquei feliz por ter ido naquele dia aquela clínica, pelo desenvolvimento da história e por a ver a ela tão mudada, tão activa, sem aquele ar oprimido por um fantasma com que tinha vindo ter comigo inicialmente; parecia ter ganho uma alma nova.
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Em Portugal:
Tem vários links sobre violência doméstica em Programas Especiais
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do mundo:
um óptimo artigo, via Brasil
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4 comments:

  1. Exatamente no momento em que leio esse post ouço a minha vizinha ameaçar o neto de três anos: "Vc vai apanhar" e ele gritando "Pára" e chorando... Estou terrificada... ainda no Brasil vivi uma situação semelhante, mas lá eu podia denunciar, como fiz. E aqui, onde tbm sou ilegal, posso ser eu presa e deportada... É agonizante viver desse jeito.
    É preciso que a sociedade possa criar mecanismos para cuidar das vítimas, evitando assim, que essa se torne num futuro agressor... essa é anova campanha do LF... Ontem era só um jogo de futebol... mas e nos outros dias, em que ouça daqui do meu quarto, a minha vizinha violência... Vou me mobilizar nesse sentido... Conto consigo, mais uma vez... no Mãe Ilegal já acordamos com dois bebés mortos de inanição na Austrália... não, não era numa galeria, foi dentro de casa, sob o olhar desatento da sociedade... A menina Isabela Nardoni antes de ser atirada ainda viva pela janela foi ouvida pelos vizinhos... mas ninguém fez nada... E se a próxima morte violenta de uma criança acontece aqui na porta ao lado... Como eu vou poder voltar a dormir em paz...

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  2. vou-te mandar um mail,Nana... até porque continuo com dificuldades em abrir teu LF e comentar nem pensar (!) é a unica página com que acontece isso e ja tentei com I.E., c/ firefox e com opera e em mais que um IP!
    enfim...
    Falarei tambem desse caso que se passa perto de ti. Isso nao pode ser assim, os seres nao podem morrer um bocado cada dia, até não restar mais nada.

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  3. anfibia2:46:00 pm

    parabéns marian por estar sempre atenta aos rostos diversos do infinito clube dos desvalidos... lindo trabalho de conscientização e denúncia.
    obrigada e um beijo!

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  4. Obrigada,Célia!
    Estar atenta e ajudar é o mínimo, não?
    Beijinhos

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