Wednesday, April 04, 2007

Sincronicidades ou… crónica de uma morte breve


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Depois de ler este relato da Giorgia que apesar de não comentar me compungiu bastante, como poderia adivinhar que me estava destinado vivenciar um episódio muito parecido quatro dias depois?!
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Hoje, após a hora de almoço e em plena Lisboa, saía de uma loja quando ouço um forte estrondo de pancada seguida de gritos de cão longos e aflitivos.
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Ainda antes da cabeça pensar, já as pernas voavam para uma distância de poucos metros do outro lado do jardim, enquanto vociferava contra o descaso de automobilistas descuidados.
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Encontrei um pequeno cão branco de excelente aspecto caído junto a uma árvore já em silencio, com um ar bem mais para lá que para cá...
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Ajoelhei-me e ergui-o docemente até ao colo, a cabeça repousou na curva do meu braço.
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Foi assim que ele deixou descair a cabeça para o lado e a língua pendeu entre os dentes
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Expeliu algumas gotas de urina que deslizaram douradas no pelo branco e os olhos vidraram como uma luz que se apaga
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-morreu! Já morreu... disse alguém com um eco de pena na voz do pequeno grupo que me rodeava. As opiniões mais ou menos indignadas à fuga do automobilista sucediam-se à minha volta
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Foi assim que fiquei a olhar para ele, a afastar lentamente a ideia de correr para o Hospital Veterinário da Estefânia, que ficava perto
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Uma bonita jovem colocou os olhos à altura dos meus à minha frente -Morreu?
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-Boa viagem até ao Paraíso disse eu à laia de resposta e ela sorriu expressiva e cúmplice
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Uma criança-menina que me pareceu quase transparente de tão iluminada que estava pela luz do sol debruçou-se da pequena multidão
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Morreu?
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-Morreu. Respondi aparentemente isenta de emoção apenas atestando o estado do um corpo
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Desde que ouvi a pancada até que passou para o outro lado do arco-íris não passou um minuto...
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Procurei no peitoral e na bonita coleira um pouco gasta Hello Kitty rosa um contacto em vão.
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Deixei o corpo na árvore depois de recomendar ao jardineiro que entretanto apareceu e que queria ir buscar de imediato um saco que o deixasse estar ali algum tempo.
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Provavelmente os donos iriam procurar por ele e considerei ser melhor serem informados da triste realidade do que darem o animal por perdido erradamente
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Retirei a coleira e avisei que a deixaria numa casa comercial da minha confiança como prova do que tinha acontecido se entretanto os donos aparecessem e o corpo já não estivesse por ali
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E fui trabalhar com a sensação de que tinha imensa emoção a navegar algures dentro de mim...
Rezando para que ele fosse bem recebido do outro lado.
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Update: mais tarde no dia, soube que os donos apareceram, reclamaram o corpo e souberam que foi dada a assistência possível.
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5 comments:

  1. Vamos ver pelo lado bom, Marian, o fato dele ter 'escapado' da agonia de uma morte lenta e sofrida. Digo isso porque exatamente ontem, também dia 04, aconteceu de eu ajudar a socorrer uma cachorrinha que, infelizmente, ficou a agonizar após um traumático atropelamento. Ia ser chamado um socorro, mas ñ pude esperar, pois estava a caminho do trabalho. Também só me restou rezar...
    Um grande beijo, Marian.
    Sheila

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  2. Hematite5:57:00 pm

    Escapei-me de um trágico momento, mas não me escapei ao impacto da notícia, qd chegaste e contaste o sucedido :(
    Dói-nos tanto qd isso acontece...mas ao menos esse nosso amigo branco de 4 patas não esteve em sofrimento durante mt tempo.
    É de lamentar a covardia e a nula formação de um ser humano...

    Beijo

    Hematite

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  3. Parece que foi um dia complicado para os caes, o 04 de Abril naquela zona: soube em conversa ocasional hoje que outro cão foi tambem gravemente atropelado não longe dali, no mesmo dia...
    Inclusive o condutor saiu do carro e ficou a olhar para a cena (o animal gritando cheio de sangue e aparentemente com uma perna partida e a dona aflitissima à volta dele) sem demontrar sombra de preocupaçao ou intenção de ajudar. Quem presenciou e me contou avançou na direcçao do culpado que antes de ter ter dado qualquer hipotese de troca de palavras se meteu no carro e arrancou!
    A matricula foi tirada.
    Ainda nao sabiam dizer-me se a assistencia veterinária que teve em seguida salvou a vida ao animal ou nao... Tomara que sim.

    Sheila e Hematite, obrigada pelo apoio e por partilharem o amor e preocupação com os nossos amigos de quatro patas.
    Um grande beijinho para as duas

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  4. Tinha lido a história da giorgia e tb me senti sensibilizada, agora lendo esta... são experiências que mexem com qualquer um.
    Beijinho e boa páscoa!

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  5. São momentos terriveis que nos dão vontade de ter o poder de voltar a um minuto antes do evento... para poder muda-lo!
    Mas a vida continua, aprendamos com o que não tem remédio: Ou um animal está muito bem treinado em relação ao transito ou é impensável deixa-lo andar e acreditar só na sorte...
    Um beijinho e Boa Páscoa para ti

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