Saturday, May 31, 2008

publicidade e género: o caminho mais fácil

Publicidade... penso sempre que é um dois em um: por um lado amostragem e sintoma do estado de costumes e convicções, por outro lado é sem dúvida formadora de opinião enquanto bombardeia os mais desatentos com conceitos fabricados.

Poderia tambem ser percursora de novas mentalidades ou manifestar requinte, subtileza e arte, mas isso é mais raro...
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Deixo um exerto do livro Os Códigos da Publicidade de Sut Jhally que no capítulo "o género sexual e a atracção exercida pela publicidade" nos diz:


Através de comentários e de exemplos extremamente argutos, este autor [Ervin Goffman] mostra-nos que na publicidade a melhor maneira de compreender a relação masculino-feminino é comparando-a com a relação pais-filhos, podendo ver-se como os homens assumem os papeis de pais enquanto as mulheres se comportam como normalmente se esperaria que as crianças o fizessem. Na publicidade as mulheres são, em grande medida, tratadas como crianças.
[...]
Ao analisar o modo como as mãos costumam ser retratadas, por exemplo, descobre que as mãos das mulheres são geralmente mostradas a acariciar um objecto, outras vezes mal o tocando, como se sobre ele não tivessem um controle total, ao passo que as mãos masculinas são mostradas a agarrar e a manipular os objectos com força e decisão. Goffman questiona-se sobre o que é que essas representações sociais dizem acerca das posições relativas dos homens e das mulheres. As camas e os soalhos, por exemplo, andam associados às partes menos limpas das dependências: além disso, as pessoas que aparecem a usá-los são colocadas num plano visual inferior a quem quer que esteja sentado ou de pé. A posição reclinada para trás coloca também as pessoas numa postura frágil em termos de defesa, deixando-as à mercê dos outros. Tais posições constituem tambem, e como é óbvio, uma “expressão convencionada de disponibilidade sexual”.
A amostra de anúncios reunida por Goffman revela que as mulheres e as crianças são retratadas na cama ou no chão com muito mais frequência que os homens. Acresce que as mulheres, quando sob a “protecção” física do companheiro do sexo masculino, são constantemente retratadas a “divagar” mentalmente, como se a força e a atenção vigilante dele lhes bastasse.

As mulheres são ainda mostradas na pose do dedo-na-boca, que remete de imediato para o comportamento infantil. Além disso, quando se mostra o contacto físico entre homem e mulher, esta surge invariávelmente a “aconchegar-se nos braços dele, da mesma forma que as crianças buscam a protecção e o conforto da mãe. A diferença entre o comportamento masculino e o feminino é, finalmente bem posta em relevo pela sugestão de Goffman de que tentemos imaginar uma inversão de posições dos modelos de homem e de mulher que nos são oferecidos.[...]

Nada há de natural nas relações entre os géneros: elas são definidas e construidas socialmente. [...]

A falsidade advém do sistema de imagens, dos anúncios no seu todo e do seu efeito cumulativo. Todas as mensagens (ou pelo menos muitas delas) versam o género e a sexualidade. Parece que, para as mulheres, nada existe nelas que seja importante para alem desses aspectos.

Quando misoginia e especismo se cruzam para criar um filho único o resultado é de um mau gosto assombroso...


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foto

Sexo, sensualidade e afins rendem sempre atenção e resultam num caminho fácil para a publicidade... com alguma mudança de mentalidade tambem agora o corpo masculino começa a ser usado para essa via

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2 comments:

  1. anfibia8:16:00 pm

    oi marian!
    maravilhoso post. desvendar a linguagem midiática ajuda a enxergar com clareza o status real de cada indivíduo. aqui no brasil ainda não se cansaram de associar cervejas, peitos, derriéres e carros. santa mãe.
    grande beijo

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  2. publicidade a maioria das vezes é uma discreta lavagem cerebral multi-tema...
    E é bem certo que as mulheres sao tratadas como crianças birrentas e um pouco lerdas em muitas peças...
    beijos para ti

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