Wednesday, December 26, 2007

Belém 2007 d.C.


arte de Howard Weingarden

Não foi assim que Maria e José entraram em Belém, mas hoje é assim que lá se entra. Espera-se junto ao muro, uma desanimadora barricada de betão, com a altura de três andares, revestida de arame farpado.

Belém e Jerusalém distam entre si nove quilómetros e meio, embora a geografia comprimida e fraccionada da região as posicione em universos diferentes. Um bilhete-postal pode demorar um mês a viajar de uma cidade para outra.
Belém localiza-se na Cisjordânia, em território tomado por Israel durante a Guerra dos Seis Dias, travada em 1967. Trata-se de uma cidade palestiniana: a maioria dos seus 35 mil moradores são muçulmanos. Em 1900, mais de 90% da cidade era cristã.

Actualmente, apenas um terço da população continua a ser cristã, e essa percentagem vai diminuindo a bom ritmo, à medida que os cristãos partem para a Europa e para a América. Pelo menos uma dúzia de bombistas-suicidas são originários desta cidade e da região adjacente. A verdade é que Belém, a “pequena aldeia” venerada durante o Natal, é um dos lugares mais conflituosos do planeta. Situada na cintura semiárida que circunda o deserto da Judeia, a cidade ergue-se sobre várias colinas amplas, de topos planos e vegetação esparsa. As casas velhas são construídas em pedra amarela pálida, encavalitando-se ao longo de ruas íngremes e estreitas.

Numa banca de rua, um espeto com carne de borrego vai rodando, pingando gordura. Sentados em cadeiras de plástico, os homens beberricam pequenos copos de espesso café árabe. No ar, paira o fedor de lixo por recolher. Enquanto subimos penosamente a colina, apercebemo-nos da extensão do muro e mapeamos a sua expansão contínua – uma espécie de cobra cinzenta, entrecortada por torres cilíndricas de vigia, fechando metodicamente a cidade num abraço apertado.
No interior do muro, ao longo das fronteiras de Belém, ficam três campos de refugiados palestinianos, blocos quadrados de apartamentos construídos uns sobre os outros. Cada brisa que atravessa as vielas dos campos levanta os cantos de centenas de cartazes de mártires – jovens de olhar impassível, alguns empunhando armas de combate. Muitos foram vítimas das Forças de Defesa de Israel. Outros fizeram-se explodir contraum centro comercial, um restaurante ou um autocarro israelita. O texto dos cartazes, em língua árabe, exalta a grandeza destes feitos. Ao lado do muro, mas fora dele, dominando os pontos mais altos e as colinas circundantes, avistam-se colonatos judaicos em expansão, onde despontam gruas de construção, sintomas de crescimento febril.

A luz do Sol ao fim da tarde refulge contra os edifícios dos colonatos, como se Belém estivesse rodeada por um incêndio. No cume da colina principal de Belém, situa--se a Praça da Manjedoura, um largo com o chão empedrado em frente à Igreja da Natividade. A estrutura mais alta e mais destacada da praça é uma mesquita. Quase todas as lojas de recordações têm as montras tapadas. O turismo é escasso: os peregrinos religiosos são trazidos e levados em bandos pelos guias – uma paragem curta na Praça da Manjedoura, seguida de uma partida apressada colina abaixo e travessia do muro, com regresso a Jerusalém. Os hotéis estão quase vazios e poucos turistas passam aqui a noite. O desemprego em Belém, segundo estimativa do presidente da câmara, eleva-se a 50%.

(parte do texto com o mesmo nome de Michael Finkel no National Geographic deste mês)
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